quinta-feira, 19 de março de 2009

Desafiados pela má qualidade das escolas, pais criam cooperativas educacionais
Paula King

paulaking@aprendiz.org.br
Diante da má qualidade da educação formal brasileira, cada vez mais pais buscam assumir o controle e se envolver com a formação escolar dos filhos. Eles se reúnem em cooperativas e passam a controlar o projeto pedagógico, as práticas e os métodos aplicados.
As cooperativas educacionais funcionam como uma escola convencional, respeitando todas as diretrizes do MEC. O corpo docente e a equipe de direção pedagógica são funcionários contratados. Cabe aos pais o gerenciamento dos recursos financeiros, geralmente por meio das assembléias, e a definição dos métodos pedagógicos.
Segundo a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), o país tem hoje 337 cooperativas educacionais registradas. Nos últimos anos houve um crescimento significativo dessas instituições - em 1995, existiam 106.
Em entrevista ao Portal Aprendiz, o gerente de apoio de Desenvolvimento em Gestão da OCB, José Luiz Niederauer Pantoja, afirma que as cooperativas educacionais ajudam seus estudantes a se tornarem cidadãos mais altruístas. Apesar disso, ele lembra que mesmo diante do significativo crescimento dos últimos anos, as cooperativas educacionais ainda enfrentam muitas dificuldades.
Aprendiz - O que são as cooperativas educacionais?
José Luiz Niederauer Pantoja - As cooperativas educacionais são, na maioria, formadas por pais de alunos que se sentem desafiados com a situação educacional de seus filhos. Eles querem assumir o controle, participar e se envolver mais com a formação escolar. Para isso, esses pais se reúnem numa cooperativa e passam a controlar o projeto pedagógico, as práticas e os métodos. Contratam professores e a equipe de apoio.
Isso tudo forma uma cooperativa educacional, que, aliás, é bem difundida no estado de São Paulo, mas iniciativas como essas existem em todo o país.
O ramo educacional do cooperativismo não é um dos mais fortes, isso porque a situação escolar no país também é fraca. Mas elas vêm para ajudar a suprir as falhas. E para isso a sociedade se mobiliza e inicia uma cooperativa.
Aprendiz - Como funciona uma cooperativa educacional?
Pantoja - Toda cooperativa está sempre organizada a partir de uma idéia e um conjunto de princípios e valores voltados para a democracia, a livre adesão, a participação responsável e igualitária e a preocupação com a responsabilidade social. Esses princípios estimulam a pessoa a operar coletivamente. Assim, uma cooperativa do ramo educacional, qualquer que seja a preocupação, sempre começa por um projeto pedagógico que define essas regras e princípios. Esse processo é todo “encharcado” pelos princípios do cooperativismo. Ou seja, a participação vem de todos, inclusive dos próprios alunos.
Aprendiz - O espírito cooperativista é difundido no Brasil?
Pantoja - O brasileiro é formado para trabalhar de maneira competitiva. Os grandes movimentos sociais ainda surpreendem a sociedade, porque a idéia de trabalhar em equipe com um único objetivo ainda é recente aqui.
Aprendiz - Quais são as vantagens oferecidas a um jovem que estuda em uma cooperativa educacional?
Pantoja - A vantagem é que o aluno se torna um cidadão muito mais altruísta, um sujeito mais preocupado com o seu papel na sociedade e com a contribuição que ele pode dar para o conjunto. Se uma criança for educada desde cedo para ter uma visão mais ampla da realidade, ela vai olhar para o próximo vendo nessa pessoa a oportunidade de troca de experiências.
Além disso, é possível observar o aumento da participação e do debate entre professores, pais e alunos. Há uma paixão e entusiasmo por um ensino mais forte e fiel.
Aprendiz – É gerado algum impacto na comunidade do entorno de uma cooperativa?
Pantoja - A cooperativa educacional tem um impacto muito importante não só na pessoa, mas em toda a comunidade.
A cooperativa contribui para promover a prosperidade da região. Grande parte da riqueza gerada estimula novos negócios nos municípios. Segundo estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nas cidades brasileiras onde há cooperativas, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é sempre maior.
Aprendiz - Quais são a dificuldades que uma cooperativa encontra para funcionar?
Pantoja - Todas. Numa cooperativa existe uma abertura de espaço para que a participação aconteça, ou seja, há a valorização de todos os membros e sem distinção. Assim, todos podem contribuir de diferentes maneiras. Quando isso acontece, diferentes tipos de reação podem surgir: positivas e negativas. Porque o ser humano é vaidoso e, além disso, ele tem o senso de liderança e de querer valer as suas vontades. E o cooperativismo significa muitas vezes negociar e abrir mão do seu interesse pessoal.
Convencer os professores a sair daquele sistema de autoritarismo dentro da sala de aula, por exemplo, não é fácil.
Também pode aparecer o baixo envolvimento dos cooperados. Muitas vezes as cooperativas embarcam num movimento burocrático, o que não gera o crescimento da iniciativa. Além disso, muitas vezes os próprios pais entregam a cooperativa que eles ajudaram a criar na mão dos professores.

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